Para muitos, o Brasil é o país do samba e do axé, pois o clima tropical contribui para esses estilos musicais. Mas, entre a penumbra noturna e o escaldante sol do nordeste nasce o Raveland. A banda é referência nacional em Doom Metal e aporta na 12ª expedição do Roça ‘n’ Roll divulgando o álbum "...and a crow brings me back”. O grupo é formado por Wolfheart (Vocal), Camilla Raven (Vocal/Violino), Albanes (Guitarras), João Cruz (Baixo/Teclados), Rafael Fermann (Teclados) e Fernando Tropeço (Bateria). Os vocalistas Camilla Raven e Dewindson Wolfheart falam mais sobre o Raveland.
1 - O Ravenland é considerado um dos maiores representantes do gothic metal do Brasil. Acredita que esse estilo tem a devida aceitação na cena metálica nacional?
Camilla Raven – Toda a cena passa por dificuldades até por uma questão cultural do nosso país. Mas temos muitas bandas boas no Brasil tentando mudar isso e vemos cada vez mais bandas daqui fazendo turnês em outros paises. Estamos tendo uma resposta bem positiva no Brasil, não temos o que reclamar, mas, o estilo ainda tem muito a crescer por aqui e há ainda uma valorização maior do que vem de fora, não só falando de Gothic Metal, mas no geral.
2 - O doom e gothic metal é um estilo recheado de ambientações instrumentais e inspiração poética. Essa característica também se aplica ao Ravenland?
Dewindson Wolfheart – Sim, a Ravenland liricamente possui alguma inspiração poética entre Álvares de Azevedo, Fernando Pessoa, José Luis Peixoto e Edgar Allan Poe. Musicalmente temos algumas ambientações, não para deixar a música parada como em ambient music, mas sim para dar um clima mais próximo do que desejamos passar, mesclando isso a uma atmosfera mais gótica e ao peso do Doom, assim juntamos esses elementos com a energia do metal. Parece até um experimento químico, (risos) mas é isso.
3 - Ravenland! Algo como “Terra do Corvo”. Qual a significação do nome e por que foi este o escolhido?
Dewindson Wolfheart - Sempre fui muito fã de Edgar Alan Poe, principalmente do seu poema “The Raven”, o filme “O Corvo” de James O Brian me inspirou muito também, mas após conhecer a música “Raven Land” do grupo sueco Lake of Tears, foi que realmente escolhi este nome para a banda. Além do mais, o corvo é o ser vivo mais gótico que existe. Talvez o escaravelho também o seja. Mas existe toda esta mística ancestral sobre o corvo e que ele seria o único ser capaz de transitar entre o mundo dos mortos e o dos vivos, isso inspira muita poesia.
4 - O grupo possui 13 anos de estrada e tem no currículo dois álbuns “After the sun hides" (2001) e "...and a crow brings me back” (2009) e vários singles. Vocês se consideram vencedores em relação a toda dificuldade e empecilhos que rodam a música underground no país?
Camilla Raven – Sim, assim como todas as bandas da cena o são. As bandas underground sentem as dificuldades, mas estamos aqui para superá-las, ninguém disse que seria fácil. Correr atrás do que se quer, gravar um álbum e tentar divulgar tudo mesmo não sendo algo popular no Brasil. Mas, diferente de como era antigamente onde a comunicação era por carta e a Ravenland divulgava uma K7, hoje temos a internet, mesmo com a onda de downloads que também prejudica, é mais fácil divulgar a banda.
5 - É notável a preocupação do Ravenland com a questão visual, o que reflete na indumentária dos músicos e nas artes dos CDs e site. Acha que o “visual” é um ponto importante a ser considerado pelos grupos de metal em geral?
Dewindson Wolfheart – Acho que o visual não é algo a ser considerado importante pelos grupos de metal em geral, mas no nosso estilo isso faz uma grande diferença. Não só em nosso visual e arte do CD, mas no cenário de palco também estamos tentando levar a todos os shows a estrutura visual do disco, são imagens que complementam toda atmosfera da nossa música tentando tornar o show realmente um espetáculo, infelizmente ainda não possuímos a iluminação que desejamos, mas em breve esperamos conseguir isso...
6 - A banda participou de um tributo do Rotting Christ que, na minha opinião, é uma das bandas mais expressivas de black metal. Como foi prestar essa homenagem a essa lenda grega do mundo metálico?
Dewindson Wolfheart – Também considero o Rotting Christ uma das melhores bandas de black metal que existe, sou admirador deles desde o álbum “No servian” e “Triarchy of the lost lovers” apesar de gostar de toda a sua discografia, mas foi em “Dead Poem” que eles me conquistaram de verdade. Quando recebemos o convite para participar em 2002 de uma coletânea em CD tributo ao Rotting Christ com vários outros grandes nomes do cenário nacional, topei na hora, melhor ainda quando pude escolher uma das melhores músicas para gravar, “Among two Storms” do “Dead poem”. Foi legal participar desta coletânea, fizemos algo bem gótico nela que destoamos de todas as bandas do disco qual 90% cantava gutural, isso nos deu um certo destaque e esta nossa versão tocou em várias rádios rock por vários meses seguidos. O CD teve distribuição pela gravadora Century Media. Foi realmente uma honra fazer parte desta grande homenagem a estes gregos!
7 - O Brasil é referência mundial em metal, principalmente em death metal. Como os fãs internacionais do Ravenland vêem o gothic metal em nosso país?
Camilla Raven – Não só os fãs, como algumas mídias internacionais nos enviam mensagens comentando que não sabiam da existência de bandas desse estilo aqui no Brasil, talvez por ser um país tropical, não sei.
Dewindson – É realmente estranho, pois não somos a primeira banda de gothic metal do nosso país, mas muitos afirmam que não conheciam nada desse estilo vindo daqui. No Japão, por exemplo, o locutor do programa Transarock disse que estava acostumado a receber pedidos de Sepultura, Angra e outras bandas de metal melódico brasileiras, mas agora recebe pedidos para tocar Ravenland, a mesma coisa aconteceu na Polônia, Alemanha e Portugal. Estados Unidos também muitos fãs afirmam que não conheciam uma banda de gothic metal aqui no Brasil, eu falo para eles que a cena realmente é pequena, mas existem bandas muito boas, daí mostro alguns links de outras bandas para eles.
8 - Alguns anos atrás existiam várias bandas de doom/gothic em atividade no Brasil, mas hoje, a cena é bem restrita a esse estilo. No mundo, acontece ao contrário, pois houve uma explosão gótica na Europa. Por que esse estilo não teve uma ascensão significativa em terras tupiniquins?
Camilla Raven – Pelo o que eu acompanhei, muitas bandas surgiam, lançavam um álbum e sumiam. Acho que isso fez com que o estilo perdesse credibilidade no Brasil. Mas temos uma proposta diferente, queríamos fugir um pouco dos elementos clichês. Temos fãs não só do Gothic Metal, mas do metal e Rock em geral. E estamos ansiosos para mostrar as músicas novas.
Dewindson – Nossa cena tem ótimas bandas e talentosas, talvez a cena tenha se saturado aqui em nosso país antes mesmo de crescer devido a todas as dificuldades que existem no underground. O lance de manter uma formação estabilizada é um deles, nós mesmos passamos por isso, muitas conseguiram lançar um álbum, mas depois vieram as dificuldades de se manter a mesma formação, os mesmos ideais e, principalmente, a dificuldade de se divulgar o disco ou até mesmo de amadurecer musicalmente para o próximo disco, mostrar identidade... Lá fora a cena teve uma evolução, se você acompanhar o trabalho de bandas como Paradise Lost, Moonspell, Tiamat, Lacuna Coil durante todos estes anos você observará que eles não ficaram se clonando, ao contrário, criaram, inventaram, re-inventaram, mas sempre mantendo a fórmula do gothic em seus álbuns por isso ajudou a explodir o Gothic Metal na Europa.
9 - O álbum "...and a crow brings me back” foi masterizado por Waldemar Sorychta. Como foi trabalhar com esse experiente produtor europeu?
Dewindson - Desde o início sempre quisemos finalizar o álbum na Europa porque sabíamos que é de lá que vem todas as bandas que nos influenciaram e que tiveram ótimos produtores para isso. Sempre o Waldemar Sorychta foi um dos melhores produtores que conheci deste estilo, em seu currículo tem álbuns do Moonspell, Lacuna Coil, Sentenced, Tiamat, The Gathering, Samael, Flowing Tears, Therion... ou seja, os melhores. Quando estávamos a procura de um produtor para masterizar o álbum lá fora, não esperávamos receber um elogio do Waldemar Sorychta sobre nossa música no Myspace, enxerguei nisso a oportunidade de masterizarmos o disco com ele na Alemanha, e ele topou na hora, nos deu uma ótima atenção e fez uma grande diferença no resultado final. Pretendemos no próximo disco trabalhar novamente com ele, mas desta vez envolvendo-o em nosso trabalho desde o início.
10 - Vocês trabalham em novos álbuns. Quando pretendem lança-los? Muitas mudanças em relação ao disco atual?
Camilla Raven – Já estamos trabalhando as composições novas e assim que voltarmos da tour européia, daremos inicio as gravações. Pretendíamos lançá-lo ainda esse ano, mas por causa da agenda de shows, o lançamento ficará para o primeiro semestre do ano que vem. E também ainda estamos divulgando o “...and a crow brings me back” e ainda pretendemos lançar um clipe para a música SoulMoon antes de mostrar as músicas novas. O que posso antecipar é que o álbum será mais pesado e mais variado.
11 - Pela primeira vez, a banda toca no Roça ‘n’ Roll. Qual a expectativa para o festival? Como se sentem sendo a única banda de gothic metal do cast? E o que o fã do estilo pode esperar da apresentação do Ravenland no dia 12 de junho?
Camilla Raven – A expectativa é grande até pela responsabilidade de estar representando o estilo no festival e por isso nos sentimos honrados por termos sido escolhidos e fazer parte desse grande dia.
Dewindson – Não esperem uma cópia do Nightwish, nem Epica, somos o Ravenland do Brasil, estamos preparando um grande show para vocês com muita energia e peso, Gothic Metal da nossa maneira. Um abraço a todos sob as asas dos corvos da RAVENLAND.
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